29 de Julho de 2010 às 13:00

Por: Jaime João Pasqualini

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UM HUMILDE TRIBUTO AOS SALESIANOS

Iniciei meus estudos em 1.966 no Colégio Dom Bosco aqui em Rio do Sul. Minha convivência com os Padres Salesianos construiu um história de respeito e admiração por aqueles que acreditava fossem apenas aqui no SUL DO BRASIL os precursores da Educação dos Jovens, mas não, recentemente descobri que as grandes façanhas desta Congregação não se resumiam apenas aos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Descobri  e meu respeito e admiração cresceram ainda mais quando soube que há muito eles dedicam seu trabalho altruístico e missionário também em outros recantos deste imenso BRASIL, descobri que na longínqua cidade de São Gabriel da Cachoeira – AMAZONAS, nela também estão fincados - desde os primórdios do século XX, marcos indeléveis do trabalho missionário dos nossos queridos Padres seguidores de Dom Bosco.
Há muito ouço histórias sobre esse ou aquele Padre Salesiano, afinal, diariamente conversando e debatendo com eles no Colégio Dom Bosco, muitos fatos e ações nos eram repassados, porém,  algo sempre me tomava a atenção porque envolvia diretamente meu AVÔ – JACOB MANDEL, que em meados da década de 50, provavelmente no ano de  1.955  foi convidado pelo Padre Vitor Vicensi – de saudosa memória, para “construir” 3 (três) serrarias aqui mesmo em Rio do Sul e depois transportá-las de navio até a localidade de UAUPÉS - hoje denominada de SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA e lá erguê-las.
Assim, como aquele acontecimento envolvia diretamente alguém da minha família, sempre me interessei saber mais sobre o contexto em que se passou a construção das tais serrarias em proveito das missões evangelizadoras. Com as facilidades tecnológicas atuais, leia-se “internet”, descobri primeiramente que a antiga localidade de “Uaupés” foi elevada a categoria de Município e passou a se chamar São Gabriel da Cachoeira, a qual dista mais ou menos 850 km da capital Manaus no Amazonas. S.G. da Cachoeira é considerado o município de maior extensão territorial do Brasil, além é claro de uma série de outros atributos que o distingue da maioria das outras cidades brasileiras, já que 70% da população é de origem indígena. (CONTINUA)


O artigo a seguir expressa de forma concisa o contexto em que o trabalho profissional de meu avô ocorreu: “Quando os primeiros missionários salesianos chegaram a São Gabriel da Cachoeira, em 1914, encontraram uma população muito reduzida de índios em grave miséria. Eram os sobreviventes de diversas etnias massacradas durante mais de dois séculos pelo comércio escravagista que supria a demanda de mão-de-obra de Belém e Manaus e, de quebra, introduziu uma série de epidemias. O estado dos indígenas era tão deplorável que não houve resistência, diferentemente do que ocorrera em encontros anteriores com os brancos.
A bacia do rio Negro, que inclui também a Amazônia colombiana e a venezuelana, é habitada por indígenas há pelo menos 3 mil anos, como indicam vestígios arqueológicos. Os registros mais antigos da presença de exploradores europeus no lugar são do século 16. As expedições portuguesas para captura de escravos começaram na primeira metade do século 17. O trabalho era quase sempre feito com a ajuda de missionários jesuítas, para quem era melhor ver um índio escravizado, mas temente a Deus, do que livre e pagão. O período foi marcado por diversas revoltas indígenas, pela destruição de igrejas e até pelo assassinato de alguns missionários.
Em meados do século 18, o Marquês de Pombal implementou drásticas mudanças no sistema educacional de Portugal e de suas colônias, o que levou ao banimento das missões jesuíticas em terras da Coroa. Informado do grande declínio das populações indígenas do rio Negro, o marquês queria inicialmente que os índios tivessem os mesmos direitos dos europeus, mas logo se deu conta da importância deste tipo de mão-de-obra numa região que não era servida pelos navios negreiros.
Assim, a Coroa Portuguesa estabeleceu que os índios de boa saúde trabalhariam na construção das vilas e os demais, na agricultura e no extrativismo. Mas o sistema não foi respeitado e a exploração seguiu com a mesma truculência de antes, desta vez com o apoio de missionários carmelitas, franciscanos ou capuchinhos. Em viagem pela região entre 1850 e 1852, o naturalista inglês Alfred Russel Wallace escreveu:
“(…) à noite chegou apenas uma parte dos habitantes. Sempre que aportam negociantes, ocorre isso: temerosos de serem obrigados a acompanhá-los, alguns índios preferem manter-se ocultos. Muitos dos comerciantes deste rio são da pior espécie. Ameaçando matá-los, obrigam os índios a seguir viagem com eles. Costumam cumprir suas promessas, uma vez que se consideram fora do alcance daquela diminuta fração de lei que mesmo no rio Negro ainda luta para subsistir.”
Ciente do descontrole da situação na região, em 1914 a Santa Sé incumbiu a congregação salesiana Dom Bosco de estancar a escravidão, os abusos contra os indígenas e, claro, convertê-los de uma vez por todas à fé católica. Nessa época, com o fim do ciclo da borracha, boa parte deles ainda era vítima do sistema de patronagem, obrigada a pagar dívidas intermináveis contraídas no trabalho forçado nos seringais.
Depois de tão longo histórico de violência, a configuração demográfica havia se alterado radicalmente. Além de as populações terem minguado, elas também se deslocaram de suas povoações originais, sempre rio acima ou mata adentro, na tentativa de fugir dos comerciantes. Desnutridos, enfermos e exauridos, os indígenas aceitaram de bom grado a ajuda pacífica dos religiosos.
Os salesianos se mostraram bem preparados, pragmáticos e perseverantes na condução de sua “missão apostólica”. Construíram imponentes missões primeiramente em São Gabriel da Cachoeira e depois em mais seis povoados estratégicos nos principais afluentes do rio Negro, como o Tiquié, o Uaupés e o Papuri, onde foram instaladas grandes escolas em regime de internato.
Eles tinham a convicção de que só poderiam alcançar seus objetivos por meio da educação das crianças. Uma educação cristã, marcada por rigor e disciplina, como sempre fora o estilo da congregação. Para isso os missionários consideravam fundamental que as crianças se afastassem do convívio dos adultos e velhos e permanecessem a maior parte do ano confinadas em internatos.
Em seu ímpeto apostólico, os salesianos se revelaram intolerantes à cultura indígena. Os idiomas nativos eram expressamente proibidos nos internatos e qualquer flagrante era punido severamente. A separação de meninos e meninas era total. Com a introdução dos rituais católicos, penetraram também as noções de pecado e indecência. As malocas foram gradativamente destruídas sob o pretexto de promiscuidade e falta de higiene. Os pajés foram ridicularizados e difamados. Enfeites e instrumentos cerimoniais – como os que estão expostos no Museu do Índio em Manaus – foram paulatinamente substituídos por crucifixos e imagens de santos.
A competência dos salesianos foi apreciada pelo governo brasileiro, que desde 1910 mantinha o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), criado pelo Marechal Rondon, mas que jamais conseguira atingir os rincões da Amazônia. Com boa infraestrutura e serviços de saúde e educação – únicos na região – o trabalho dos missionários foi financiado pelo governo federal até a década de 1950.  “Vocês estão construindo Brasílias nestas selvas, e meu governo nem sabia”, disse o então presidente Juscelino Kubitschek em visita à missão de Taracuá, no rio Uaupés, em 1958”. (copiado do link http://www2.unesp.br/revista/?p=1118)
Mas foi nos governos de Getúlio Vargas que as missões Salesianas tiveram grande impulso, pois Dom Pedro Massa, antigo Bispo da região e que mantinha estreitos laços de amizade com o governante, e mesmo residindo permanentemente no Rio de Janeiro, foi grande protagonistas das missões, alcançando êxito na ajuda do governo brasileiro para construção daquelas obras, notadamente de Uaupés, Taracuá, Yauretê e Pari Cachoeira.
Foi nesse contexto que no ano de 1.955 o Padre Vitor Vicensi fez a encomenda ao meu Avô - para que as “serrarias” confeccionadas e desmontadas seguiriam de navio e barco até seu destino, enquanto que meu avô seguiria de avião comercial até Manaus e depois com pequenas aeronaves chamadas de “Catalinas” chegaria a Uaupés, e, por último, através de pequenos barcos alcançaria as missões onde seriam beneficiadas madeiras para construção de casas.

Foi a curiosidade e muita vontade de resgatar um pouco dessa história familiar que me levou a convidar meu tio DIONÍSIO MANDEL e juntos visitar aquela região. Viajamos no último dia 22 de julho num vôo que partiu de Florianópolis com escala em São Paulo e depois Manaus. De Manaus até São Gabriel da Cachoeira são aproximadamente 3 horas de avião. Chegamos no final da tarde e tivemos a sorte de conhecer ali mesmo no aeroporto “Uaupés” o Bispo da Diocese Dom Edson Damian que nos sugeriu conversarmos com o Bispo Emérito Dom Walter Ivan de Azevedo a esse respeito, o qual prontamente nos recebeu e logo deu as informações necessárias para prosseguirmos nossa “investigação” acerca da passagem de meu avô por aquela região inóspita e tão distante.
No dia seguinte fomos visitar o Padre Genésio Trevisan, também Salesiano. Chamou-nos a atenção a excelente memória deste Padre que chegou na região no início da década de 60,quando não havia quase nada na cidade, mas lembrava de tudo com muitos detalhes. Foi através dele que soubemos que as Missões Salesianas, na década de 50, eram baseadas em S. G. da Cachoeira, porém, haviam pelo menos mais quadro MISSÕES no interior do Alto Rio Negro, justamente nos afluentes do Rio Uaupés (Taracuá e Iauretê), Tequié (Pari Cachoeira) e Rio Papuri (Assunção do Içana).
Para nossa alegria soubemos também que junto às três Missões citadas de Taracuá, Yauretê e Pari Cachoeira, situadas bem próximas das fronteiras com a Colômbia e Venezuela, onde meu avô “levantou” as três serrarias, estas mesmas “serrarias” lá estavam ainda em funcionamento – com algumas inovações é claro, por outro lado, nossa tristeza se devia ao fato de que a distância a ser percorrida de barco para chegar até elas levada cerca de 5 (cinco) dias e nosso tempo disponível  - nesta primeira visita, não permitia.
Para reduzir um pouco nossa frustração, no terceiro dia alugamos uma lancha com motor  de popa de 40 hps e navegamos pelo Rio Negro acima até seu grande afluente o Rio UAUPÉS e na comunidade de Yauawira fizemos uma rápida visita aos seus moradores. Logo depois retornamos com a certeza de que em breve faremos uma nova investida à região com tempo suficiente para chegarmos às missões Salesianas de Taracuá,  Yauretê e Pari Cachoeira, onde meu Avô JACOB MANDEL deixou um pouco do seu trabalho construindo três serrarias que lá ainda se encontram em funcionamento, após quase 55 anos de história.
Mas a grande conclusão que chegamos de tudo que vimos e ouvimos, foi sem dúvida alguma nosso reconhecimento e gratidão a esses grandes homens que formam a congregação dos Padres Salesianos de DOM BOSCO, HOMENS perseverantes e fiéis aos desígnios da Igreja,  com toda certeza sem o trabalho profícuo e missionário deles o Brasil não seria o que hoje é.

Rio do Sul, 26 de julho de 2.010
Jaime João Pasqualini
Professor



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Comentários

29/07/2010
13:52

Jussara Ivelise Custodio

Extraído do texto.
"Eles tinham a convicção de que só poderiam alcançar seus objetivos por meio da educação das crianças. Uma educação cristã, marcada por rigor e disciplina, como sempre fora o estilo da congregação. Para isso os missionários consideravam fundamental que as crianças se afastassem do convívio dos adultos e velhos e permanecessem a maior parte do ano confinadas em internatos. "

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29/07/2010
13:55

Jussara Ivelise Custodio

Da mesma forma, reproduzindo:
"Em seu ímpeto apostólico, os salesianos se revelaram intolerantes à cultura indígena. Os idiomas nativos eram expressamente proibidos nos internatos e qualquer flagrante era punido severamente. A separação de meninos e meninas era total. Com a introdução dos rituais católicos, penetraram também as noções de pecado e indecência. As malocas foram gradativamente destruídas sob o pretexto de promiscuidade e falta de higiene. Os pajés foram ridicularizados e difamados. Enfeites e instrumentos cerimoniais – como os que estão expostos no Museu do Índio em Manaus – foram paulatinamente substituídos por crucifixos e imagens de santos."

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29/07/2010
14:38

Augusto José Hoffmann

Jaime permita-me subscrever as primeiras linhas da sua homenagem. Meus estudos lá, tiveram início em 1965, com a Prof. Neli, depois, Jucélia Nunes, Dalva Zanis e Lucia Rosar.

Antes, meu pai, no internato, se formou contador e, meus dois filhos, posteriormente, também por lá passaram.

Alguns dos meus valores, tem origem nesses honrados e abnegados padres, representados aqui, na figura do Pe. João, prof. do meu pai e, anos mais tarde, meu amigo, nos recreios.

São aspectos, de nossas vidas, difíceis de serem relativizados pelas visões contemporâneas de alguns valores, flexibilizados, quando a ética perdeu a sua melhor acepção.

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29/07/2010
14:44

Maristela Macedo Poleza

Que bacana o relato e a oportunidade do reencontro também com raízes da própria história.

Vou torcer para que nosso amigo blogueiro encontre as serrarias que seu avô construiu e que
elas possam ser fotografadas e mostradas como acervo histórico de técnicas e época.


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29/07/2010
16:12

Ary Laurindo

O que sou, tudo que sei, devo aos extraordinários mestres salesianos, com os quais tive a felicidade de conviver e aprender nos anos 50, até 1959, sem favor algum, no melhor colégio do Brasil, o Colégio Dom Bosco, em Rio do Sul, terra abençoada.

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29/07/2010
16:17

Xico Stocker

Copiando a Jussara, extraí do artigo:

"O trabalho era quase sempre feito com a ajuda de missionários jesuítas, para quem era melhor ver um índio escravizado, mas temente a Deus, do que livre e pagão".

Comentário meu: Quanta barbárie foi cometida contra alguns povos com o apoio dos "representantes" do Criador.

Muitos daqueles jesuítas, quando morreram, certamente foram recebidos com festa pelo "coisa ruim".

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29/07/2010
23:18

Augusto José Hoffmann

Para ser justo, a professora do segundo primário era Jucélia Oliveira, filha de Carolina e Romeu Oliveira.

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30/07/2010
11:12

Nidia Maria de Leon Nobrega

Pois é gente:
a igreja católica fez coisas inomináveis em nome de Jesus.

Coitado de Jesus...

Ele não merecia tanta sacanagem.

A educação de povos com aculturação cristã através da força,castigo físico,escravidão,medo e morte foi algo terrivel.Não Óde escravos negros,mAs de indios,indianos,orientais e outros povos .

2-A destruição da natureza em vários cantos do pais foi outra devastação em nome de deus e de Jesus.

Espero que as serrarias do pai do jaime estejam hoje no museu.

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